"PELA EMANCIPAÇÃO HUMANA"

PELA EMANCIPAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA,

PELA LIBERTAÇÃO DO OPRIMIDO EM TODO O MUNDO,

PELO FIM DO RACISMO E DO MACHISMO,

POR UM HIP HOP COMBATENTE E NÃO SUBSERVIENTE,

A LUTA CONTINUA!!!

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domingo, 2 de agosto de 2009

ESSA É PRA VOCÊ

Sem perca de tempo eu vou logo é dizer
Sou preto comunista, muito pesado pra você.
Não sou direita e nem esquerda, sou ausência de poder.
Comuna vermelha, força ativa pode crer!!
Com muita revolta é nóis que apavora,
Meu rap é de protesto e eu apresento a proposta.
Sai da frente bom escravo, meu bonde vai passar, blindado vermelho pronto para metralhar.
Pensamento articulado, soldado proletário,
A rua me inspira e a rebeldia do trabalho.
A célula vermelha em cada canto da cidade,
É a expressão máxima da luta de classes.
Invadindo a mansão, explodindo a burguesia,
Tipo V de vingança, ouça esta sinfonia.
Seu fascista, racista, agora vai pagar,
Conte até três e ajoelha pra rezar.
Não vai ter negociação, isso aqui não é seqüestro,
Só vai pro nosso povo o que foi roubado há séculos.
Eu sou a destruição que aboliu a escravidão,
A greve proletária que parou a produção.
O próprio coveiro que a burguesia criou,
O outubro vermelho que o mundo se espantou,
Bolchevique armado sedento por sangue,
Meu manifesto é comunista sou mais um nesta guerrilha.
Tipo Black panthers questionando o racismo,
Se organizando, se informando contra o capitalismo.
Tipo o moleque armado na palestina,
Ou o homem bomba que luta contra a tirania.
Ou o rebelado enfrentando o choque,
Na manifestação organizada pelos pobres.
Tipo Malcom X, estilo Zapatista, América vermelha,
A chama comunista, abaixo o imperialismo, aqui eu sou sandino,
A foice e o martelo, o fuzil estão comigo.
Posso ser os malês, posso estar na África,
Eu sou a rebeldia do oprimido que não para.
O movimento guerrilheiro que descolonizou a África.
O rebelde armado que não aceita a opressão,
O mano exilado, encarcerado na prisão.
A criança sem casa pedindo no farol,
Fazendo malabar o dia inteiro no sol.
Sou sem terra, sou sem teto, sou sem educação,
Preto, explorado, não tenho religião,
Um excluído da história que não teve opção.
Sou marginalizado, preto, pobre, favelado,
Comunista, odiado, anulado, copiado, proletário,
Excluído sem trabalho, potencial revolucionário.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A via colonial e a entificação do racismo

Sobre Raça e Classe
A via colonial e a entificação do racismo

Wellington Lopes Góes[1]



"O estado é um produto do antagonismo inconciliável das classes"

(LENIN, 2007)



A formação social do Brasil não se dá de forma pacífica, harmônica ou com ausência de conflitos. Muito pelo contrário, os mais de três séculos de escravidão e colonização não é outra coisa senão: uma necessidade do capital que se configurava a partir dos domínios de outros territórios e da revolução industrial.

A escravidão moderna no continente africano e em toda a América esteve diretamente ligada com as necessidades de acumulação de capital. Só a partir desta leitura, podemos entender como o Brasil é parte deste processo global de extração e exploração, denominado por Marx (1994) de "acumulação primitiva do capital". Parafraseando o autor, podemos afirmar que a extração de ouro e prata na América, acompanhada pelo extermínio e escravização das populações nativas − obrigadas a trabalhar nas minas −, o principio de conquista e pilhagem das Índias Orientais e a tomada da África como grande campo de caçada de seres humanos, cujos objetivos foram o lucro, são eventos que marcam os albores da era da produção capitalista.

Ao mesmo tempo em que fez parte deste processo global, o Brasil de forma particular após servir de local para exploração, escravidão, também vai se organizando internamente para o capitalismo, temos que entender como foi estes dois movimentos que se unem em determinado momento. Desta forma, a via de constituição do capitalismo no Brasil é a colonial; o país sempre foi dominado pela metrópole e, ao ser o último país a acabar com a escravidão, instala o capitalismo de forma dependente.

Chasin (2000) afirma que:

“... no Brasil (...), a grande propriedade rural é presença decisiva; de igual modo, o reformismo pelo "alto" caracterizou os processos de modernização, impondo-se, desde logo, uma solução conciliadora no plano político imediato, que exclui rupturas superadoras, nas quais as classes subordinadas influíram, fazendo valer seu peso específico, o que abriria a possibilidade de alterações mais harmônicas entre as distintas partes do social (...) o desenvolvimento das forças produtivas é mais lento, e a implantação e a progressão da indústria, isto é, do "verdadeiro capitalismo", o modo de produção especificamente capitalista, é retardatária, tardia, sofrendo obstacurizações e refreamentos decorrentes da resistência de forças contrárias e adversas. Em síntese, (...) verifica-se, para usar novamente uma fórmula muito feliz, nesta sumaríssima indicação do problema, que o novo paga alto tributo ao velho (CHASIN, 2000, p.44).



Ainda, dentro da particularidade, diz o autor sobre o “integralismo” proposto por Plínio Salgado:

“... enquanto a industrialização alemã é das últimas décadas do século XIX, e atinge, no processo, a partir de certo momento, grande velocidade e expressão, a ponto de a Alemanha alcançar a configuração imperialista, no Brasil a industrialização principia a se realizar efetivamente muito mais tarde, já num momento avançado da época das guerras imperialistas, e sem nunca, com isto, romper sua condição de país subordinado aos pólos hegemônicos da economia internacional. De sorte que o “verdadeiro capitalismo” alemão é tardio, enquanto o brasileiro é híper-tardio” (CHASIN, 2000, p.45).



Com esta problematização, partindo da colonização e da constituição do modo de produção capitalista no Brasil, podemos explicar os ataques, as leis de repressão, extermínio e de controle social da população negra, como uma necessidade das elites brasileiras.

O entendimento deste momento histórico é a chave no qual ajuda a perceber toda a situação de opressão que vive a população preta, especificamente no pós-abolição aos dias de hoje.

Posto estas linhas gerais, é possível verificar como se deu a entificação do racismo, como uma ideologia que justifica a dominação, a super-exploração e a violência do estado direcionado a população negra, mas não entendemos o racismo como uma idéia ou simplesmente ideologia: ele surge das relações de dominação praticadas pelo Estado e as suas leis, portanto, das relações de poder.

Antes de abolir a escravidão, as elites brasileiras já esboçavam um projeto posterior, a burguesia não era unitária quanto ao teor do projeto; ela própria lutará entre si, mas há um ponto comum: os pretos à margem do sistema produtivo de diferentes formas.

Dentro desta perspectiva, a política pensada pelas elites tinha uma preocupação: o que fazer com esta imensa população afro, que agora é "liberta"? Para responder a esta preocupação, o Brasil rpojetou três tipos de políticas: de branqueamento, de controle social e de extermínio.

A política de controle social passava por uma instância jurídica que focava leis de restrições de liberdade a esta população, leis que restringiam a circulação dos pretos na rua, proibição de manifestações culturais de matriz africana como a capoeira, cultos religiosos; enfim, marginalização do que não fosse cópia européia. Não foi por acaso que veio a Lei da Vadiagem.

A política de extermínio era sistemática, era comum ver a repressão do aparato militar sobre esta população. O extermínio não se resumia apenas em situação de violência física, soma-se a ela o grande número de mortalidade infantil, morte por falta de comida e por doenças devido ao modo de vida em que esta população estava imersa.

Já a política de branqueamento visava à entrada de europeus no Brasil, primeiro usados como mão-de-obra e, depois, com o objetivo de miscigenar com os africanos para que a população fosse embranquecendo de forma gradual, até não existir mais pretos. Esta idéia foi bastante presente.

A tabela abaixo, citada por Moura, nos mostra o quanto esse projeto de nação foi eficiente para as elites desde 1850 até o começo do século 1900: Entrada de imigrantes Europeus no Brasil (1851 - 1900 )

1851 - 1860 ( proibição do tráfico) 127 747

1861 - 1870 ( Lei do ventre livre) 97 571

1871 - 1880 (movimento abolicionista) 219 128

1881 - 1890 (abolição total) 525 086

1891 - 1900 (apogeu da imigração européia) 1 129 315

1891 - 1900 (apogeu da imigração européia) 1 129 315





"Podemos reparar pelos dados acima, que á uma relação entre o processo de decomposição do sistema escravista e o ritmo de entrada de imigrantes europeus (...). À medida que segmentos escravos, por várias razões, eram afastados do sistema de produção, entrava, em contrapartida, uma população branca livre para substituí-los.

Não por acaso, logo em seguida, foi criada a Lei da Vadiagem para agir como elemento de repressão e controle social contra essa grande franja marginalizada de negros e não-brancos em geral" (MOURA, 1988, p 85).

Todas estas políticas foram deliberadas e executadas pelo estado e amparadas por uma justificativa teórica pseudocientífica, como em Nina Rodrigues (1993), além de ser financiada pelo Estado elitista,

República Velha, Nova, Estado Novo, Ditadura de Vargas, Ditadura Militar de 64 e democracia... Não importa a época, os pretos foram sempre esmagados pelo Estado e seu poder repressivo, pois o racismo institucionalizado funciona muito bem quando sustentado pelos instrumentos da classe dominante, culminando em uma ideologia que estabelece padrões onde o que é bom, bonito e belo é associado ao mais próximo do branco; logo, tudo de ruim, feio e perigoso é associado aos não-brancos.

A burguesia no Brasil sempre agiu de forma autocrática, autoritária, temendo a organização popular, e antecipando-se a estes movimentos utilizando de muita repressão, desde a República Velha até ao nosso período chamado democrático.

Se buscarmos na História, foram poucos os períodos de liberdade no Brasil. A vigilância e a criminalização dos movimentos sociais sempre se fez presente e várias organizações que lutavam contra o racismo foram perseguidas. Esta ação da burguesia autocrática, em parceria com o Estado, foi utilizada com o objetivo de manter a dominação de classes, fazendo com que a classe trabalhadora ficasse no imobilismo não-questionando esta relação de opressão com a radicalidade necessária.

Todavia, a burguesia autocrática sempre tratou os pretos como potencialmente perigosos, uma vez que a presença destes esteve ligada aos movimentos de resistência, seja no Império, como nas ases seguintes da História do Brasil. Lutavam por condições melhores de vida e pelos direitos básicos que garantissem minimamente a satisfação das necessidades.

A burguesia autocrática é incapaz de fazer qualquer tipo de concessão, mesmo no âmbito das políticas sociais, basta verificarmos a discussão sobre as ações afirmativas e observar o discurso da burguesia contra essas ações.

Tendo como foco sempre a repressão, a burguesia autocrática no comando do Estado pratica o genocídio contra os pretos; estes morrem violentamente pela ação da polícia − um dos braços armados do Estado. Morrem por falta de comida, por falta de atendimento nos serviços de saúde, morrem por doenças que poderiam ser evitadas, etc.

A premissa de que todos são iguais é falsa quando olhamos para a realidade e vemos que o mundo em que vivemos é o mundo onde o capital impõe as suas regras e o Estado vira apenas o executor desta política para a burguesia. Tudo isso mostra como o racismo "cordial" age no Brasil; o racismo continua sendo uma ideologia dominante nessa sociedade, que inferioriza o negro por ação do Estado − primeiro violador dos direitos humanos −, com suas políticas sociais voltadas para o privilégio da burguesia.

Existem setores populares dos movimentos que acreditam que esta democracia dos ricos pode ser aperfeiçoada, podendo eliminar o racismo; assim como há outros setores que perceberam que esta democracia é importante, porém insuficiente de resolver nossos problemas.

Portanto, vemos que a luta anti-racista é fundamental, pois temos que pautar, enquanto movimento social, a necessidade de ruptura com este modelo de sociedade, construindo um projeto que dê conta das demandas do oprimido historicamente. A isto cabe a tarefa de transformar radicalmente esta sociedade, se não seremos meros oprimidos, controlados pelo capital e sem ação, sem crítica, sem a capacidade de dar um basta a esta realidade.



Referência Bibliográfica

CHASIN, J. O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. São Paulo: Ciências Humanas, 1978.

LENIN. V. I. O Estado e a revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

MARX, K. O capital, vol.1. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

MOURA, C. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988.

MORAIS, O. A.. Imigration in to Brazil: a statical statement and related espects. In: BATES, M. The migration of people to Latin American. The Catholic University of America Press, 1957.

Vozes das ruas!!!

Vozes das ruas!!!

É essa é pra você,

Que acorda cedo e pega lotação, metrô, busão,

Que sobe o escadão na quebrada,

Não por opção.

Que cola com os irmãos,

Na rua na missão.


Então, então se liga na estatística,

Jovens pretos na facul, número menor

Do que aqueles que carregam a bíblia,

Ou aqueles parado pela polícia,

Levados para o presídio faz fila.

No cemitério mais um caixão,

Mais uma vida, engolida pelo mundão.


Essa é pra você que mora nas favelas,

Resistindo, sobrevivendo e que transita pelas vielas.

Na periferia todos os dias, na correria.

Essa é pra você que mora nas ruas,

Que cata lixo, vende latinha, puxa carroça,

Pra ter um prato de comida.


Essa é pra você, que por falta de opção se prostitui,

Estigmatizada, idolatrada, abusada por corpos em crise sexual,

Fabricados e reforçados pela falsa moral.


Essa é pra você que está privado de liberdade,

Encarcerado, algemado,

Propriedade do estado.

Essa é pra você, que anda na lama,

Pisa no barro, joga bola no campo com os pés descalço.

Condenados a viver sem salário,

Improvisado, se pá um estudo fraco,

Fantasiado no mundo fetichizado pelo capital.

Com o sonho de consumo até passa mal,

De quebrada a quebrada prossegue a cena,

Vidas caladas, desperdiçadas,

Encarceradas e assassinadas vidas,

pelo sistema, racista e capitalista.


Essa é pra você, pra mim, pra nóis da periferia,

Das favelas, dos morros,

Os miseráveis, excluídos, perseguidos,

Rebeldes por várias vias.

Não nos entreguemos, continuemos a viver,

Resistindo de várias formas,

A esse mundo em decadência,

A essa humanidade desumana.

Essa é pra você...

domingo, 21 de dezembro de 2008

"SAPATINHO NA JANELA" Por Góes


"SAPATINHO NA JANELA"

Categoria: Escrita e Poesia


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Era dezembro. As árvores enfloravam. As pessoas montavam pinheiros artificiais, bolinhas coloridas e pequenas lâmpadas propunham a ilusão de inverno. Da porta pra fora o Sol mandava os raios quentes, ao meio dia cabeças queimavam, nos rostos derretia o suor. O corre-corre era geral, nos grandes centros pessoas aglomeravam-se em volta das barracas, balcões e vitrines. Aquele que possuía o recurso carregava várias sacolas. Nas periferias o asfalto queimava os pés descalços da galerinha, o pipa rasgando o céu com sua rabiola colorida, bola rolando na rua de terra. O filho carrega duas garrafas do líquido insalubre. O pai pega, da-lhe uma moeda e se refresca: ....
- AAAAAAAHHHHHSSSSSS! Que geladinhaaaa. ....

No canto da sala Dininha sentada com a bunda no chão. Na mão esquerda um lápis, com a outra mão rabiscava. Seus olhos pretos redondos como bolinha de gude atentos ao papel branco.....

Da porta pra fora a euforia toma conta da população. No barzinho da esquina a brasa sapeca um pedaço de carne, na grelha improvisada também tem lingüiça apimentada, aza de frango e coro de toucinho. A fumaça instiga o estômago da mulecada, dois ou três cachorros espreita rodeando a mesa de plástico amarelo. Em volta da mesa quadrada ficavam sempre duas duplas que se digladiavam amigavelmente no jogo de dominó. Do balcão sai os mais diversificados líquidos assassinos.....

O céu começa a escurecer, o Sol se despede. A noite quente é coberta pelas nuvens carregadas, o odor da cebola faz a mãe chorar, o pai comanda o controle remoto, sai do banheiro o menininho barrigudinho com a toalha enrolada, pingando água do cabelo crespo. Na cadeira de madeira estava Dininha. Lápis na mão, papel de pão apoiado na mesa, seu nariz largo sugava o cheiro da cebola, a boca carnuda resmungava palavras em segredo, enquanto rabiscava.....

No dia seguinte quase tudo se repete, o pai veste a roupa, tira o pó do sapado preto, assenta a marmita na bolsinha, corre para o ponto de ônibus. Dininha chega com a bengala, o cabelo crespo meio amarelo, na cabeça redonda uma tiara, o nariz largo sente aroma do café fresco, na boca carnuda ainda tinha alguns dentes de leite, coloca a bengala em cima da mesa, os olhos pretos e redondos como bolinha de gude miram no papel de pão, a menina desenrola o alimento.

Da porta pra fora crianças correm e gritam pelo quarteirão, falta água, o calor é intenso. Os molequinhos comemoram: ....
- Viva. Hoje não vai ter aula. ....
- queria que tivesse aula. Hoje é dia de pão com salsinha, o outro lamenta.....
Espalha-se o boato de que a diretora mandou distribuir a merenda. Todas as atenções se voltam para a escola. ....

As casas já estão enfeitadas, pisca pisca, bolinhas coloridas, mensagens de paz pelas portas. No fim da tarde as nuvens amontoam-se por cima das cabeças, no bar não tem ninguém, o dominó está lá, guardadinho na caixinha, o dono do bar desce o toldo colorido, pingos d’aguas desmancham os pipas, a mulecada enrola a linha na lata de óleo, mulheres e crianças rapam o varal, janelas são fechadas e logo cai a noite...

Na madrugada um gritão: - Filinha apaga a luz!!! Dininha está atenta, com os cabelos crespos amarelados cobertos com um pedaço de meia calça, os olhos redondos estão avermelhados, o braço fino guarda a folha de papel e o lápis. Aspira bem fundo pelo nariz largo o odor fresco da chuva, respira pela boca carnuda, com o dedinho curtinho e unha pintada de bege, apaga a luz...

De manhã o Sol invade a casa pela janela. Os raios queimam a testa franzida da pequeninha. O pedaço de meia calça se perde no quarto deixando livre o cabelo crespo amarelado. Esfrega com a mãozinha, de unhas beges, os olhos pretos e redondos como bolinha de gude, em seguida limpa o nariz largo. Na boca carnuda ainda tem baba. Seu corpo magricelo dispensa o cobertor. O braço fininho estica até a gaveta, pega o lápis e o papel. Vira de bruço e continua a escrever...

A canção natalina toma conta da vizinhança. Dininha atenta ao calendário passa a escrever mais rápido. Dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Escreve sem parar. São varias folhas de papel branco.

Da porta pra fora tem confusão, os meninos se estranham, as pessoas se amontoam, forma uma roda, os corpos se enroscam. Da multidão surge um outro com algo na mão, as pessoas se desesperam, corre gente pra todo lado, derrepente o pipoco... Some todo mundo, ninguém viu nada. A mulher com bobes na cabeça berra aos prantos: meu filho, meu filho. Dois dias depois o sepultamento...

São férias, não tem mais aula. “Ufa! Só no ano que vem”. Alguns viajam, a maioria fica por lá mesmo. Ocupar os filhos é a tarefa principal das mamães . O clima na vila não é tão bom. O medo se mistura com o otimismo, apesar de tudo ainda se escuta: “dias melhores virão”.

A menina parece triste, o pai chega suado, carrega duas sacolas vermelhas lotadas. Veste na cabeça um boné vermelho com letras pequenas. O rosto esticado acomoda as rugas e a barba com mexas brancas. A menina olha bem o pai. Pensa em jogar fora o rascunho, mas decide esperar o anoitecer. Ganha um vestido branco, para os outros têm calça e camisa. Seu sorriso dente de leite não amarela.

Da porta pra fora as pessoas se abraçam. A vizinha que negou por nove vezes uma caneca de açúcar foi perdoada. Recebe um apertão da chamada fofoqueira, as duas brigaram vinte e oito vezes durante o ano todo. Agora prometem tréguas, perante aos céus fazem jura de paz eterna, como no ano passado. Criançada ataca biribinha ao chão. Pelos cantos choraminga aquela que perdeu seu filho há pouco.

O maior amigo do homem é o saca-rolhas, a mulecada enxuga dois, três, quatro, cinco litros do suave.
– Se moscá nóis dorme aqui mesmo! Sussurra o páfrentão.

A menina mira o céu, olhos pretos perseguem as estrelas cadentes. Ainda tem gente voltando do trabalho. No ponto de ônibus do centro da cidade, o tal demora horas, quem espera está de cara feia. Surge um menino aos trapos, pés no chão em noite serena. Escorre ligeiramente o catarro do nariz, esfrega o braço deixando rastro pelo rosto.
- Tia dá cinco centavos. Num tenho não. Tio dá dez centavos. Num tenho. Ti... Não. Dá cinco... Não. Dá... Tem não. Parte o pirralho decepcionado. Um trabalhador bigodudo começa o bate papo:
- Os muleques de hoje perdeu a vergonha mesmo!....
O outro que trajava uma calça azul, portava uma sacola. Dentro da sacola, acomodado estava o pão de frutas. Este questiona:....
- Os muleques perderam a vergonha ou foram os pais que perderam a vergonha?
O bigodudo traga ferozmente o cigarro, sopra pro ar, a fumaça flutua em redemoinhos. Logo diz:
- No meu tempo não era assim, agente fazia qualquer coisa, tinha vergonha de pedir. Carregava caixa, olhava carro... Quando crescer fica pior!
O amigo responde de bate pronto:
- Isso é. Se crescer!
Uma mulher balançava a cabeça em sinal de apoio, enquanto o insignificante evaporava no tempo feito fumaça de cigarro.

Todo mundo cantou dingobel, a mãe da Dininha corre pro quarto. Vê que a menina adormeceu ao "pé" da janela, parece que desistiu da visita do trenó. Acomodou sua filha na cama, cobriu com uma manta vermelha. Tira do sereno uma caixa de sapato, dentro estava a carta enrolada. Ler com dificuldade o cabeçário: “Querido papai...” demora um pouco. Depois de cinco minutos termina a leitura. Chorando enxerga embaçada as últimas letras: “... traz pra minha mãe paz, saúde e um feliz...”